O Cenário dos Automáticos no Brasil e a Resistência do Câmbio Manual
O mercado automotivo brasileiro atravessa um momento de transformação, onde a busca pelo conforto nas grandes cidades tem priorizado cada vez mais a transmissão automática, mesmo nos segmentos de entrada. Atualmente, encontrar um veículo zero-quilômetro que dispense o pedal da embreagem exige pesquisa, pois os preços flutuam consideravelmente. Abaixo, analisamos o cenário atual dos dez carros automáticos mais acessíveis do país, seguido por um contraponto interessante vindo do mercado norte-americano, onde a transmissão manual sobrevive como um item de nicho para puristas em picapes.
As Opções Automáticas Mais Acessíveis do Mercado Nacional
Ao observar o ranking dos modelos mais em conta, nota-se que a barreira dos R$ 100 mil é um divisor de águas importante. Na décima posição, temos o Chevrolet Onix Plus AT Turbo, o modelo mais custoso desta lista, tabelado em R$ 111.690. Apesar do preço, o sedã entrega um motor 1.0 turbo de 116 cavalos e uma caixa de seis marchas, além de um pacote robusto de segurança com seis airbags e controles de estabilidade.
Logo em seguida, ocupando a nona posição, aparece o Hyundai HB20 Comfort Plus. Por R$ 109.490, o hatch coreano aposta na tecnologia, oferecendo câmera de ré, sensor de estacionamento e uma central multimídia de 8 polegadas, casados com um motor 1.0 turbo de 120 cavalos.
A oitava colocação traz o irmão menor do sedã da GM, o Chevrolet Onix AT Turbo hatch, que custa R$ 105.290 e repete a mecânica e a lista de equipamentos da versão Plus. Já a Fiat marca presença em sétimo lugar com o Cronos Drive. O sedã italiano, vendido a R$ 103.990, diferencia-se pelo motor 1.3 aspirado e, principalmente, pela introdução do câmbio CVT de 7 marchas simuladas, focado em eficiência.
A Fronteira dos R$ 100 Mil
O Volkswagen Polo Sense surge como o sexto colocado e o último modelo a ultrapassar a cifra de seis dígitos, custando R$ 102.990. Ele mantém a tradição alemã com motor turbo e painel digital de 8 polegadas.
Entrando na faixa mais competitiva, abaixo dos R$ 100 mil, encontramos o Peugeot 208 Allure na quinta posição. Por R$ 99.990, o hatch francês não só traz o motor turbo de 130 cavalos e câmbio CVT, mas também agrega valor com uma multimídia de 10 polegadas e conectividade sem fio.
A Toyota domina o meio da tabela com a família Yaris. O Yaris Sedan XL (4º lugar) e o Yaris Hatch XL (3º lugar) compartilham o preço de R$ 99.490 e o conjunto mecânico 1.5 com câmbio CVT. O destaque aqui fica por conta da segurança, com sete airbags de série, incluindo o de joelho.
No topo da acessibilidade, a Fiat retorna com o Argo Drive em segundo lugar, custando R$ 97.990, oferecendo o mesmo conjunto do Cronos. Entretanto, o título de carro automático mais barato do Brasil pertence ao Citroën C3 You!. O modelo, que custa R$ 95.990, combina o motor 1.0 turbo de 130 cavalos com câmbio CVT, entregando um pacote ágil e conectado com câmera de ré e faróis de neblina.
Um Contraponto de Engenharia: A Experiência Manual na Nova Toyota Tacoma
Enquanto o mercado brasileiro massifica o câmbio automático, nos Estados Unidos ocorre um fenômeno curioso de resistência purista. A nova Toyota Tacoma permanece como a única picape média vendida naquele país com opção de câmbio manual, uma vez que a Jeep Gladiator abandonou essa configuração. A permanência do pedal de embreagem na linha 2024 da Tacoma levantou dúvidas se a Toyota manteve a opção apenas por obrigação ou se realmente investiu na qualidade da condução.
Após testes extensivos com a versão TRD Off-Road, equipada com a cor “Terra” (um tom que lembra laranja queimado) e pneus BF Goodrich em rodas de 17 polegadas, a conclusão é positiva. A picape, equipada com um motor 2.4 turbo de quatro cilindros, entrega 270 cavalos e 42,8 kgfm de torque na versão manual — uma redução imperceptível em comparação aos números da versão automática.
A experiência de condução remete, de forma nostálgica e positiva, às antigas picapes a diesel. O motor não gira alto, limitando-se a cerca de 5.000 rpm, e as trocas de marcha exigem longos cursos da alavanca. Embora exija mais trabalho do condutor, seja no trânsito urbano ou na estrada, é exatamente esse envolvimento mecânico que torna a condução prazerosa. Diferente de um esportivo como o Supra, a Tacoma manual oferece uma robustez tátil, ainda que o motorista precise se habituar para não engatar a ré no lugar da primeira marcha acidentalmente.
Dinâmica e Veredito
Há, contudo, peculiaridades no projeto. A picape não aceita saídas em segunda marcha, exigindo o uso constante da primeira, que é bastante curta, para evitar trepidações. Dinamicamente, a suspensão com amortecedores Bilstein de fábrica mostrou-se ágil, permitindo curvas divertidas em estradas sinuosas e confiança em terrenos acidentados da propriedade rural onde foi testada. A Tacoma superou inclinações íngremes que anteriormente só haviam sido transpostas por veículos UTV.
No fim das contas, a presença do câmbio manual na Tacoma moderna não é sobre eficiência pura, mas sobre a conexão entre homem e máquina. A sensação visceral de controlar as trocas de marcha em uma picape moderna e equipada é o melhor indicativo de que a montadora acertou na estratégia, oferecendo diversão genuína em um segmento dominado pela automação.









