A encruzilhada da Honda: do rombo bilionário com os elétricos ao ronco do Type R
A Honda está olhando para um buraco financeiro que não via há quase sete décadas. A montadora japonesa se prepara para engolir um prejuízo operacional na casa dos 400 bilhões de ienes (algo em torno de 2,55 bilhões de dólares) no ano fiscal que termina em março de 2026. Para uma empresa que não fechava no vermelho desde que abriu capital em 1957, o baque é histórico, varrendo do mapa o lucro de 1,2 trilhão de ienes do exercício anterior. O tamanho desse rombo só perde para a pancada que a Toyota levou durante a crise financeira global de 2008 e 2009. A aposta pesada nos carros elétricos cobrou seu preço, e a conta chegou mais alta do que qualquer um em Tóquio previa.
O pivô para a eletrificação pura simplesmente bateu na trave. A Honda precisou cancelar todo o seu programa de elétricos na América do Norte e o lançamento da linha 0 Series, o que disparou um prejuízo que pode bater os 15,7 bilhões de dólares. Estávamos falando de modelos que já estavam quase na linha de montagem e fábricas em Ohio que já tinham sido readequadas para o lançamento. Do outro lado do mundo, na China, o cenário foi um atropelo: marcas locais de EVs, com ciclos de desenvolvimento muito mais rápidos e um domínio de software muito maior, engoliram a Honda, que não conseguiu entregar carros com um custo-benefício competitivo. Juntando isso aos tombos bilionários da Ford e da GM, o recuo coletivo da indústria automotiva em relação aos elétricos a bateria já soma uns 67 bilhões de dólares.
Diante desse banho de água fria, a estratégia mudou. A Honda não está jogando a toalha para a eletrificação, mas puxou o freio de mão com força. O dinheiro que antes ia para os elétricos puros agora está irrigando os híbridos. A ideia é lançar 13 novos modelos híbridos de nova geração no mundo todo a partir de 2027. Nos Estados Unidos, onde as vendas desses modelos têm sido a verdadeira salvação da lavoura, a linha eletrificada já representou quase um quarto das vendas americanas da marca em 2024, um número que só tende a engordar. O detalhamento dessa rota será apresentado em meados de maio, mas o recado já está dado: híbridos agora, elétricos apenas quando o jogo virar e, claro, nos termos da Honda.
Curiosamente, enquanto a matriz lida com essa dor de cabeça corporativa e recalcula a rota, a engenharia da marca continua fazendo barulho onde se sente mais à vontade. Lá na pista de Nürburgring, o Civic Type R 2023 apareceu rasgando o asfalto. Mantendo aquela receita estética que o fã da marca já conhece, o esportivo baseado na 11ª geração do Civic deu as caras todo camuflado, mas não conseguiu esconder as grades de ar bem mais parrudas na frente e o kit aerodinâmico com saias frontais e laterais. Na traseira, o aerofólio ficou um pouco mais discreto do que o exagero da geração de 2017, mas o para-choque entrega o jogo com as clássicas três saídas de escape, com a central claramente mais imponente. Completando o visual, as enormes rodas pretas deixam à mostra as pinças vermelhas da Brembo, tudo calçado com pneus Michelin de alta performance.
Mesmo sem a Honda abrir a ficha técnica oficial, a expectativa é que esse seja o Civic Type R mais brutal já feito. A aposta mais segura é que eles mantenham o aclamado motor 2.0 VTEC turbo com injeção direta, mas dando um belo tapa na potência para ultrapassar os 320 cavalos do modelo anterior. Rola até um burburinho sobre uma nova opção de câmbio automatizado de dupla embreagem.
Toda essa dualidade da Honda reflete diretamente no que o consumidor brasileiro vai encontrar nas concessionárias. A fabricação nacional do Civic deu seu adeus definitivo em 2022, com a montadora preferindo dar os holofotes e o volume de produção para a nova geração do City. Quem quiser colocar um Civic zero quilômetro na garagem no Brasil, seja para ter um híbrido racional de luxo ou para acelerar forte com a insígnia vermelha do Type R, vai ter que bancar a importação das versões topo de linha. A Honda parece estar arrumando a casa, escolhendo a dedo quais brigas comprar em cada mercado enquanto tenta se recuperar do tombo elétrico.









